
Com o cigarro entre os dedos, olho o chão:
há um cemitério de pequenas mortes aos meus pés,
cinzas de mulheres que já fui, que ainda sou,
e outras que me aguardam atrás da fumaça, sem rosto e sem nome.
Fui filha quando precisava ser pequena, mãe quando ainda procurava colo,
esposa, amante, doméstica, profissional, babá, proprietária, universitária;
vesti cada nome como quem veste uma pele emprestada,
e agora não sei se eram máscaras sobre mim ou se eu era todas elas.
Houve um quarto escuro dentro de mim, dividido em três silêncios,
um labirinto onde cada saída desembocava em outra versão;
mergulhei fundo demais em mim mesma, contei cem miligramas de ausência,
e quando voltei à superfície, a pergunta continuava respirando: quem sou eu?
Talvez eu nunca descubra, e exista algo de belo nisso:
ser tantas sem precisar escolher uma só, morrer em algumas, nascer em outras;
seguir o fluxo, ir e voltar, carregar contradições como quem carrega luas,
até compreender que talvez identidade não seja um lugar, mas tudo aquilo que ainda posso me tornar.