Meio século re-existindo

Em minha infância, brinquei com o tempo em pés descalços,
entre formigas, risos e muros derrubados;
o mundo era um quintal de descobertas,
onde a tristeza se curava com o vento,
e a felicidade se escondia em cada tarde que não voltava.

Foi na adolescência que vieram as sombras e as palavras cortantes,
a dor vestiu meu corpo antes do amor,
quis dormir para nunca mais acordar —
mas uma amizade acendeu a centelha,
e eu aprendi que até o sofrimento ensina a viver.

Na juventude amei e me perdi no amor,
gerei vidas e quase apaguei a minha,
chorei a traição que veio do sangue,
casei-me com a dor e dela renasci,
mulher que sangra, mas floresce mesmo ferida.

Uma vez madura, voltei pra casa com os filhos nos braços,
refiz o lar dentro de mim mesma,
trabalhei, estudei, lutei contra o silêncio,
aprendi que solidão também é chão firme,
e que amar de verdade é não se abandonar.

Na plenitude da vida, raspei o cabelo, soltei as amarras,
voltei a estudar, a viver, a sonhar, a amar o mesmo amor
fiz das cicatrizes minha assinatura,
sou raiz que se recusa a secar —
meio século, cinco décadas, pura resistência!

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