A Casa e o Grito

Levei nos braços, com cuidado,
A minha pequena, ao fim do dia.
A casa estava num mercado,
Alta, amarela, em calmaria.

No vidro, um rosto — mas estranho,
Não era quem eu esperava.
Era do sangue o velho arranho,
Quem minha alma já calava.

Chamei por Beth. “É Goreth,”
Corrigiu com olhos de bruma.
O nome trouxe um gosto de morte,
Uma névoa que se perfuma.

Entreguei a menina, segui
Por ruas sem nome ou lembrança.
Um ônibus passou por mim,
Levantando o véu da esperança.

O tempo era um peso, um chamado,
A rua, um fim sem retorno.
À esquerda, um medo encostado.
À direita, um abrigo em contorno.

Entrei na igreja — fui seguida.
Queria ele o que era meu.
Mas da oração, minha saída,
Fez com que fugisse, sem véu.

O pastor viu fé em meu gesto,
Mas eu só queria fugir.
Recusei o seu manifesto,
Não sabia pra onde ir.

Meu irmão orava, tão firme,
Fomos por rua escondida.
Uma mulher tentou me impedir,
Com sua face retorcida.

O banheiro — um jogo, um espelho,
A disputa, um campo aceso.
E entre insultos e aparelhos,
Surgiu meu amor — tão tenso, tão preso.

Ele brigou, ela quis registrar,
Como se o drama fosse troféu.
Na confusão, fui me lembrar
Da casa com cheiro de céu.

Mas lá, mortos andavam sorrindo,
Crianças, velhos, rostos velados.
“Por que estão vivos, vindo?”
Meus olhos, ali, sufocados.

Fotos em fila nos corredores:
Meu irmão, marido, meu filho.
Misturados — dores e amores,
Num mesmo e estranho trilho.

Um homem passou pela porta,
E eu soube sem saber bem.
A casa — tão velha e tão morta —
Gritava que havia alguém.

“Amor!” — chamei com temor.
“Estou aqui, garota,” ele disse.
E o grito, cheio de amor,
Me acordou do que se omisse.

Acordei — mas não fui inteira.
Senti o presságio, a vertigem:
A linha entre agora e a beira
É tênue. E algo se origina.

Algo… está por vir.

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