Poema do inconsciente

Chovia manga dentro da casa,
não do céu, mas do teto e do tempo,
descia em pedaços, invadia os quartos,
molhava o passado com doce fermento.

A casa de madeira rangia baixinho,
com cheiro de rio, de roupa estendida,
era lembrança de um chão antigo,
onde a dor plantava raízes de vida.

As irmãs varriam a fruta, ela calada,
enquanto eu dizia: “tem algo errado”,
e a rede de pesca, pendida na sala,
guardava um estudo mal desenhado.

No quintal alagado, o lago se erguia,
e os bichos do fundo vieram subir:
peixes, serpentes, criaturas antigas,
eu temi que quisessem me ferir.

Mas queriam manga, apenas a manga,
a fruta cortada, espalhada no chão.
Então larguei vassoura, larguei a raiva,
e os deixei entrar no meu coração.

E fora da água — milagre ou encanto —
os corpos molhados viravam humanos.
Sentaram no chão, comeram em paz,
em silêncio antigo, de gestos estranhos.

A casa se encheu de gente e de calma,
doces escoando por fresta e varanda.
E eu entendi: o que parecia invasão,
era só vida pedindo demanda.

Quando acordei, não era mais noite,
nem dia. Era outra dimensão, era do outro lado.
A manga ainda estava no meu pensamento,
e a casa cheirava à fruta, à lago, à passado.

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