
Na madrugada sem nome,
quatro sombras rasgaram a casa,
arrancaram minha filha do meu peito
como quem arranca flor do caule,
e em silêncio me invadiram —
não só o corpo,
mas o tempo,
a fé,
o futuro.
Fui dividida em partes,
turnos de dor sobre a carne,
enquanto o mundo dormia
e meu filho sonhava,
a poucos passos
do horror.
Eu suspeitei do sangue
que me traía por dentro —
a irmã, o carcereiro, o plano.
E quando, no dia seguinte,
ela veio saber do dinheiro —
não de mim —
eu soube:
não era só o corpo que tinha sido violado.
Era o laço.
Era o nome.
Era o amor.
Mas mesmo assim,
mesmo ferida de dentro pra fora,
eu cheguei a casar.
Com olhos fundos,
com medo nas mãos,
mas com a alma inteira
gritando: eu estou viva.
Perdoei.
Um por um.
Até a mim.
Mas esquecer?
Não.
A dor virou tatuagem.
E a tinta era cor púrpura.
Porque ainda que seja a cor da ferida,
é também a cor da realeza.
E eu sou rainha
do que sobreviveu.
Rainha do que não se calou.
Rainha do que foi desfeito
e, ainda assim,
se refez.