
Havia nele duas portas,
e eu nunca sabia qual se abriria.
Atrás de uma, morava o homem que me cobria de presença,
me fazia acreditar que enfim havia chegado em casa.
Atrás da outra, o silêncio.
Frio, comprido, calculado como uma noite sem janela.
Sua atenção voltava quando seu desejo chamava,
e quando eu perguntava pela ferida, dizia que ela só existia na minha cabeça.
Morei três meses dentro daquele labirinto,
cinco meses tentando decorar seus corredores.
Até que escolhi uma casa onde coubesse inteira,
e ele chamou minha partida de abandono.
Então vieram os apelos,
a voz que parecia pedir que eu voltasse,
o convite que abria uma porta
e a desculpa que a fechava antes que eu pudesse entrar.
Houve um dia em que nossos corpos disseram ainda,
enquanto alguma coisa entre nós já dizia nunca mais.
No dia seguinte,
ele atravessou o salão de mãos dadas com outra história.
E eu fiquei diante das perguntas dos outros
tentando compreender como um amor pode desaparecer tão depressa
sem deixar de doer tão devagar.
Agora sinto falta.
Não sei se dele,
ou daquele homem que existia antes do silêncio.
Talvez eu sinta falta da promessa,
da versão dele que me fez acreditar
que o abrigo desabrigado podem habitar o mesmo rosto.
E essa é a parte mais cruel:
não é preciso que duas pessoas existam para haver duas versões.
Às vezes, basta uma só
para nos ensinar a amar o calor
e depois nos convencer de que o frio
foi invenção nossa.